segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

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08/12/2013 - 03h42

Filmes restaurados mostram o desbunde de Agnès Varda


SILAS MARTÍ
DE SÃO PAULO

Lá pelo meio de "Lions Love", a cineasta pergunta se a arte deve imitar, deformar ou exagerar a realidade. No caso de Agnès Varda, a resposta pende para um exagero realista, em especial no filme de 1969 que ela rodou em Los Angeles e acaba de ser restaurado junto de grande parte de sua filmografia californiana.
Varda, belga que se radicou em Paris e explodiu na cena cinematográfica no auge da nouvelle vague com "Cléo das 5 às 7", em 1962, passou duas temporadas vivendo em Hollywood -no fim dos anos 1960 e no início da década de 1980, vendo de perto a contracultura hippie e, depois, testemunhando o surgimento da arte de rua.
Num esforço do Museu de Arte do Condado de Los Angeles para resgatar o encontro inusitado entre a vanguarda francesa e a Califórnia, essas raridades vêm à tona cinco anos depois do último filme da autora, "As Praias de Agnès", que acabou de ser lançado em DVD no Brasil.
Divulgação
Da esq. à dir., James Rado, Viva, que aparece deitada, a cineasta Agnès Varda, ao fundo, e Gerome Ragni em 'Lions Love'
Da esq. à dir., James Rado, Viva, que aparece deitada, a cineasta Agnès Varda, ao fundo, e Gerome Ragni em 'Lions Love'
Mas o que emerge agora para além do que se conhecia de seus filmes é certo desbunde visual que ela experimentou nos Estados Unidos, como se as cores berrantes dos muros grafitados, as praias iridescentes e o calor da briga por direitos civis turbinassem a estrutura nada convencional de sua obra.
"Lions Love", que está no centro de uma retrospectiva da artista agora em cartaz no museu norte-americano, ilustra muito bem essa transição.
"É um filme expressivo dessa época, que resume a experiência californiana na virada de 1968 para 1969", diz Varda, 85, em entrevista à Folha. "A contracultura então no auge se centrava em revolução sexual e luta política."
Nos filmes que fez por lá, essa revolução se traduz em penteados extravagantes, música e joias. "Quando cheguei à Califórnia, foi um choque ", lembra Varda. "Mergulhei no espírito de revolta."
Em "Lions Love", Varda escala Viva, uma das maiores subcelebridades lançadas por Andy Warhol, e os -belos- autores do musical "Hair", que estreara em 1967, numa trama psicodélica, que misturava ficção e realidade.
Entre banhos pelados na piscina, orgias eventuais e diálogos desconexos, os personagens vão traçando um painel político e cultural da época, vivendo num eterno "ménage à trois" com pausas para discutir os assassinatos de Martin Luther King Jr. e do senador Robert Kennedy, além de um atentado contra Andy Warhol, todos em 1968.
Naquele ano, o artista pop, que Varda chegou a conhecer, foi alvejado por sete tiros disparados por uma das frequentadoras da Factory, seu antigo ateliê em Manhattan, mas sobreviveu e morreria só após uma cirurgia em 1987.
TEXTURA DOCUMENTAL
Fora seu flerte com a estridência do pop e a cultura psicodélica, Varda gravou em Oakland, nos arredores de Los Angeles, um curta sobre os Panteras Negras, grupo alinhado à esquerda revolucionária que brigava pela garantia dos direitos dos negros.
É seu momento mais militante e agressivo na incursão californiana. Há ainda um retrato cinematográfico que fez de um tio distante que se radicou num bairro de casas flutuantes em Sausalito, que chamam de "subúrbio aquático", e um filme sobre as paredes grafitadas da cidade.
"Minha obra tem uma textura de documentário, embora seja quase toda de ficção", diz Varda. "Sempre flertei com essa fronteira. Meu último filme, por exemplo, pode ser visto como uma narrativa da minha vida, mas é mais sobre como eu conto isso."

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