MUCURIPE
Intervenção no Farol gera polêmica
21.11.2013
A Prefeitura apoia o evento, mas informa que não concedeu autorização para grafitarem o espaço
O Farol do Mucuripe se tornou o centro de uma polêmica. O bem, que é um patrimônio histórico do Ceará, mas encontra-se em estado precário de conservação, recebeu uma intervenção urbana, por meio do grafite. Então, começaram as indagações sobre a "legalidade" da ação. A questão foi levantada nas redes sociais e passou a ganhar espaço em meio a diversas pessoas.
Quem vai ao local ainda encontra grafiteiros, e há quem defenda que a iniciativa no Farol chamaria atenção das autoridades, enquanto outros acreditam que esta não é a melhor forma de mudar a situação do espaço FOTO: KIKO SILVA
Por meio do evento Festival Concreto, espaços da cidade foram indicados em conjunto com a Prefeitura para receberem as ações, o que não é o caso do Farol. Alguns cidadãos acreditam que a iniciativa no prédio chamaria atenção das autoridades, enquanto outros dizem que esta não é a melhor forma de mudar a situação de abandono.
Narcélio Grude, um dos coordenador do Festival Concreto, - evento por meio do qual estão ocorrendo as intervenções - afirma que a ideia de grafitar o Farol foi tomada por ele próprio. Porém, ele acredita que a pintura, "uma intervenção artística e cultural", não danificou o bem.
Rafael Lima Verde, xilogravurista ilustrador, foi um dos responsáveis pelo grafite no Farol. Além dele, outros dois aristas foram convidados pelo Festival Concreto, no qual pretende disseminar arte urbana na cidade.
O Farol do Mucuripe está abandonado há anos, em estado de conservação precária, com danos que podem até comprometer a estabilidade do prédio
O xilogravurista conta o que pretendia retratar mães com filhos dependentes químicos. Rafael acrescenta que a ideia é fazer o poder público lembrar daquele lugar. "O Farol foi abandonado pelas autoridades, mas foi ocupado por mendigos e usuários de crack. Passou a ser povoado de outra maneira" enfatiza.
O Farol está localizado na Rua Vicente de Castro, no Cais do Porto. No local também se encontra a comunidade Serviluz. Um dos moradores, conhecido como Mad, ajuda na nova pintura do patrimônio. "A nossa vontade era pintar tudo de preto, pra mostrar o luto da comunidade em relação ao abandono do Farol" conta. Mad reside no bairro há 17 anos e acredita que o descaso com relação ao bem é reflexo do desdém com a comunidade. "Se ele estivesse em um bairro nobre, não estaria destruído desse jeito. A gente quer que ele volte a ser como antes. A história da nossa cidade está aqui também" certifica.
Olhar
O arquiteto e urbanista Romeu Duarte não concorda com esta forma de chamar atenção. "Sou contra essa grafitagem, não é a forma correta de atrair o olhar do poder público" afirma. Ele enfatiza que esse ato vai contra a legislação que prevê a preservação do patrimônio público.
Já o secretário da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas de Juventude de Fortaleza, Élcio Batista, afirma que a Prefeitura apoia o evento, mas que não concedeu nenhuma autorização para a intervenção no Farol. No entanto, outros locais receberam permissão, como os Centros Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cucas) da Capital.
O governo do Estado é o responsável pela conservação do Farol, tombado há cerca de 30 anos. Ontem, devido à polêmica, foi enviada uma equipe da Coordenadoria do Patrimônio Artístico, Histórico e Cultural (Copahc) para uma visita técnica no local. Ficou constatado que o edifício encontra-se em situação precária de conservação, os danos podem até comprometer a estabilidade do prédio.
Por meio de nota, a Secretaria da Cultura do Estado (Secult) reconheceu a importância do arte urbana, mas considera que a grafitagem, como qualquer outra intervenção feita em um bem tombado, deve ter autorização prévia e orientação do órgão que processa o tombamento, para que a preservação do equipamento continue sendo feita.
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Quem vai ao local ainda encontra grafiteiros, e há quem defenda que a iniciativa no Farol chamaria atenção das autoridades, enquanto outros acreditam que esta não é a melhor forma de mudar a situação do espaço FOTO: KIKO SILVA
Por meio do evento Festival Concreto, espaços da cidade foram indicados em conjunto com a Prefeitura para receberem as ações, o que não é o caso do Farol. Alguns cidadãos acreditam que a iniciativa no prédio chamaria atenção das autoridades, enquanto outros dizem que esta não é a melhor forma de mudar a situação de abandono.
Narcélio Grude, um dos coordenador do Festival Concreto, - evento por meio do qual estão ocorrendo as intervenções - afirma que a ideia de grafitar o Farol foi tomada por ele próprio. Porém, ele acredita que a pintura, "uma intervenção artística e cultural", não danificou o bem.
O Farol do Mucuripe está abandonado há anos, em estado de conservação precária, com danos que podem até comprometer a estabilidade do prédio
O xilogravurista conta o que pretendia retratar mães com filhos dependentes químicos. Rafael acrescenta que a ideia é fazer o poder público lembrar daquele lugar. "O Farol foi abandonado pelas autoridades, mas foi ocupado por mendigos e usuários de crack. Passou a ser povoado de outra maneira" enfatiza.
O Farol está localizado na Rua Vicente de Castro, no Cais do Porto. No local também se encontra a comunidade Serviluz. Um dos moradores, conhecido como Mad, ajuda na nova pintura do patrimônio. "A nossa vontade era pintar tudo de preto, pra mostrar o luto da comunidade em relação ao abandono do Farol" conta. Mad reside no bairro há 17 anos e acredita que o descaso com relação ao bem é reflexo do desdém com a comunidade. "Se ele estivesse em um bairro nobre, não estaria destruído desse jeito. A gente quer que ele volte a ser como antes. A história da nossa cidade está aqui também" certifica.
Olhar
O arquiteto e urbanista Romeu Duarte não concorda com esta forma de chamar atenção. "Sou contra essa grafitagem, não é a forma correta de atrair o olhar do poder público" afirma. Ele enfatiza que esse ato vai contra a legislação que prevê a preservação do patrimônio público.
Já o secretário da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas de Juventude de Fortaleza, Élcio Batista, afirma que a Prefeitura apoia o evento, mas que não concedeu nenhuma autorização para a intervenção no Farol. No entanto, outros locais receberam permissão, como os Centros Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cucas) da Capital.
O governo do Estado é o responsável pela conservação do Farol, tombado há cerca de 30 anos. Ontem, devido à polêmica, foi enviada uma equipe da Coordenadoria do Patrimônio Artístico, Histórico e Cultural (Copahc) para uma visita técnica no local. Ficou constatado que o edifício encontra-se em situação precária de conservação, os danos podem até comprometer a estabilidade do prédio.
Por meio de nota, a Secretaria da Cultura do Estado (Secult) reconheceu a importância do arte urbana, mas considera que a grafitagem, como qualquer outra intervenção feita em um bem tombado, deve ter autorização prévia e orientação do órgão que processa o tombamento, para que a preservação do equipamento continue sendo feita.
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FÁBIO CAMPOS 21/11/2013
O Ceará sem farol
NOTÍCIA2 COMENTÁRIOS
Tempos obscuros. Abandonado, negligenciado, vilipendiado e depauperado, as paredes do Farol do Mucuripe servem agora para abrigar grafites. É a cereja no bolo confeitado da ignorância histórica que nos assola.
O velho farol é um ícone arquitetônico de Fortaleza e do Ceará. O seu vergonhoso abandono é o outro ícone que se sobrepõe de maneira avassaladora. Talvez seja o Farol a única edificação da Capital em estilo barroco.
Junto do sol, do mar, da jangada, das serras, do sertão e da carnaúba, o Farol está representado na bandeira e no brasão do Ceará. É patrimônio histórico e bem arquitetônico tombado por lei estadual. Foi cantado em versos por Ednardo e belissimamente retratado pelo belga Georges Wambach (o quadro está na Fiec).
Erguido por mão de obra escrava em alvenaria, madeira e ferro, o Farol do Mucuripe foi inaugurado em 1846. Até ser desativado em 1957, funcionou por mais de 110 anos como os “olhos do mar” de Fortaleza.
Em reportagem publicada no O POVO de 10 de janeiro passado, a repórter Rafhaelle Batista mostrou sem retoques a triste realidade com que o Ceará e os cearenses tratam o seu patrimônio histórico e cultural. Vejam trechos:
“O capim crescido, o amarelo das paredes desbotado, dividindo espaço com as pichações, e as portas escancaradas são indícios do que se verá por dentro. Além de inscrições irregulares, há sujeira para onde se olha, placas sugerindo um serviço de informações que já não existe, jogadas no chão de um banheiro imundo, soterrado de barro e infestado pelo odor de fezes espalhadas no térreo e no primeiro andar. Para chegar até lá, uma escada de ferro do século 18, enferrujada, já despregando da parede, balança a ponto de causar vertigem em quem se aventura a subir”.
Tão grave quanto o exposto é a busca da reportagem pela “autoridade” responsável. A Secult jogou para a Setur que jogou para a SPU (Governo Federal) que jogou de volta para a Setur. Sim, a Setur que faz o Acquário de R$ 300 milhões.
Sim, a lamentável permissão (devidamente acatada) para grafitar as paredes do velho farol serviram para algo. Nesse sentido, os poderes públicos conspiraram contra si. O Governo do Estado, a estatal Cagece e a Prefeitura de Fortaleza são as patrocinadoras desse festival de “arte urbana”.
São estes citados poderes os responsáveis diretos pela preservação daquele patrimônio. Portanto, por decorrente raciocínio lógico, são eles (os entes públicos) os responsáveis pelo abandono e consequente depredação do Farol do Mucuripe.
No caso, o mérito dos “artistas urbanos” não está na “obra artística”. Esta, como toda arte, é discutível. Uns gostam. Outros não. Por sorte, é efêmera. Pode ser simplesmente substituída pelas cores originais do Farol. Mas, isso deve ser por obra e arte de especialistas em reconstituição de patrimônios arquitetônicos.
O mérito acidental da grafitagem (mais propriamente da cobertura jornalística) foi ter chamado a atenção para o abandonado Farol. No caso em questão, que este abuso “artístico” sirva para alguma atitude concreta (dos poderes públicos).


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