terça-feira, 12 de novembro de 2013

Dose diária 12 11 2013 - 4

Quero lembrar disso:


CARTA 10/11/2013

(Não) Esperando Banksy

Em carta, o designer Yuri Leonardo e o ilustrador Ramon Cavalcante apresentam Fortaleza a Banksy, caso o badalado e misterioso grafiteiro britânico venha mesmo à Cidade durante o Festival Concreto
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DEIVYSON TEIXEIRA
Graffiti na avenida Jovita Feitosa: uma cidade esquizofrênica à espera (ou não) do artista britânico
Yuri Leonardo e Ramon Cavalcante
 Especial para O POVO

Eaí, Banksy, tudo ok?
Falaram que você deve visitar Fortaleza nos próximos dias. Depois daquele outubro de um ação por dia nas ruas de Nova York, é natural que alguns fortalezenses estejam ansiosos pra ver o que você fará por aqui - enquanto outros nativos temem os efeitos das suas obras na cabeça dos nossos conterrâneos.
Tudo bem, Banksy, você é realmente foda. Você é o sujeito que grafitou a parede mais famosa do mundo contemporâneo, a muralha que divide Israel e Palestina. Já plantou um boneco inflável trajado de prisioneiro de Guantánamo em um dos brinquedos da Disneyworld após os ataques de 11 de setembro. Expôs um elefante real grafitado em uma galeria, tem obras incríveis espalhadas nas maiores cidades do planeta, já tirou sarro de Hollywood e dos Jogos Olímpicos de Londres, tem discurso extremamente político e relevante nas ações que se propõe a fazer, tem obras ultrapassando custo de 250 mil dólares, os comerciantes da Sotheby’s te amam e há uma legião de grafiteiros que te cultuam.

Mas e se você, o artista anônimo mais conhecido do mundo, simplesmente quiser ficar sussa alguns dias em Fortaleza?

Não sabemos bem o que dizer para amigos estrangeiros que nos perguntam o que há de bom pra fazer em Fortaleza. A propaganda turística daqui tenta vender pacotes de viagens no combo “coma caranguejos, gargalhe no show de humor e dance forró”. Seria mais justo se incluíssem no pacote uma visita ao maior conjunto habitacional da América Latina (tome nota que os governantes competem entre si por esses títulos, é algo estranho), no bairro José Walter, que receberá moradores despejados por obras pseudo-desenvolvimentistas; ou um tour pelo Pirambu, um dos bairros mais densamente populosos da América Latina (viu só?), com direito a ser recebido por fortalezenses comuns oferecendo suco de goiaba e bolo fofo no lanche da tarde. Às vezes penso como seria chamativa uma trilha ecológica pelo Parque do Cocó anunciada em pacotes turísticos como “APROVEITE A PAISAGEM: no próximo verão estas árvores serão condomínios de luxo circundados por asfalto”. O pessoal do marketing turístico daqui devia entrar em contato com a gente - ou talvez não.

Os problemas de desigualdade social, as mazelas com dinheiro público, a opulência do luxo: essas coisas dão um tempero muito particular a uma cidadezinha litorânea que inflou bem mais do que deveria em trinta anos. Nossa cidade abriga um dos homens mais ricos do país ao mesmo tempo que possui um dos piores índices de desigualdade social do mundo. Somos afetados por problemas de natureza universal vestindo bermuda e calçando chinelos. Você provavelmente vai achar essa cidade tão esquizofrênica, Banksy, e (não se pode esquecer) tão quente, que acreditamos ser impossível você não grafitar parede alguma durante a estadia por aqui.

Isto é, caso você venha mesmo por aqui.

Talvez a vinda de Banksy a Fortaleza seja como o Godot da peça de Samuel Beckett. Não se sabe muito sobre ele. Não se sabe quando vai vir. Mas, do contrário de Vladimir e Estragon, personagens que aguardam a chegada da misteriosa figura, não se pode esperar tanto para nada fazer. A vinda de Banksy deve estimular muita gente a partir para as ruas e expressar-se da maneira que for para questionar o funcionamento das coisas que nos cercam.

De qualquer forma, seja bem vindo, Banksy. Muro é o que não vai lhe faltar aqui.

Yuri Leonardo, 24 anos, designer (yuri.leonardo@gmail.com).
Ramon Cavalcante, 28 anos, ilustrador
(ramon.cavalcante@gmail.com)

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