domingo, 19 de janeiro de 2014

Dose diária 19 01 2014


A linguagem da arte

Chinolope vendia jornais e engraxava sapatos em Havana. Para deixar de
ser pobre, foi-se embora para Nova Iorque.
Lá, alguém deu de presente a ele uma máquina de fotografia. Chinolope
nunca tinha segurado uma câmara nas mãos, mas disseram a ele que era fácil:
— Você olha por aqui e aperta ah.
E ele começou a andar pelas ruas. Tinha andado pouco quando escutou
tiros e se meteu num barbeiro e levantou a câmara e olhou por aqui e apertou ali.
Na barbearia tinham baleado o gângster Joe Anastasia, que estava
fazendo a barba, e aquela foi a primeira foto da vida profissional de Chinolope.
Pagaram uma fortuna por ela. A foto era uma façanha. Chinolope tinha
conseguido fotografar a morte. A morte estava ali: não no morto, nem no matador. Amorte estava na cara do barbeiro que a viu.

O Livro dos abraços de Eduardo Galeano. 

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