sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Dose diária 25 10 2013


Quero lembrar disso:



Fortaleza tem memória, mas tem pressa

Memória e patrimônio histórico em questão

Ouço frequentemente pessoas falando que a cidade não tem memória. Muito pior: que não tem história, porque não soube preservar seu patrimônio histórico.
Façamos a gentileza de não julgar nossa cidade por um aspecto só. O patrimônio material de Fortaleza realmente teve e tem algumas questões problemáticas que o cercam, mas nosso patrimônio imaterial, por sua vez, é riquíssimo. Nossas danças, cantos, histórias, saberes, artesanato e tradições de uma criatividade transbordante.
Compreender as razões de Fortaleza não ter tantos bens tombados quanto deveria, por exemplo, é fundamental pra saber onde erramos e o que podemos fazer pra não errar mais.
Podemos comemorar o fato de que o Brasil foi o primeiro país da América Latina a proteger seu patrimônio, quando criou a legislação necessária pra isso em 1937. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, então, passou a identificar, proteger e gerir o patrimônio brasileiro. (a primeira lei de uso e ocupação do solo da capital veio somente em 1979).
Mas nem sempre ele trabalhou sob os mesmos critérios. No início, os principais conceitos que caracterizavam um bem como histórico eram sua excepcionalidade, monumentalidade e homogeneidade.
Pobre do patrimônio arquitetônico de Fortaleza, que não tinha nada tão excepcional (de significado histórico extremamente relevante pro país), nem tinha monumentos colossais como um Cristo Redentor, ou uma homogeneidade de estilos arquitetônicos impressionante.
A propósito, é a “falta de estilo” a maldição que caiu sobre a cidade. Alguns prédios são recentes, de um neoclássico que não atrai a atenção de pesquisadores e técnicos, ou são até mesmo “vira-latas” arquitetônicos: prédios sem estilo definido, um ecletismo que acaba sendo expressivamente nada aos olhos dos que avaliam os bens.
Os critérios técnicos por vezes menosprezam nosso patrimônio, que fica entregue aos critérios econômicos. Um prédio antigo fica vulnerável à degradação quando perde o sentido pra comunidade, quando não dialoga mais com a realidade ao redor, quando não tem mais uso possível, quando parece ter perdido todo o seu valor material. Sim, porque diante das dificuldades econômicas do nosso povo, o valor simbólico das coisas é um luxo dispensável.
O que quero dizer é: como explicar pra um senhor que possui um prédio antigo no Centro, herança de família, que ele não pode e não deve reforma-lo?
Também, o que esperar de uma cidade que vive principalmente do turismo? Que irradia uma imagem que sempre evoca praia, sol e lazer? Basta uma análise rápida nas propagandas que visam chamar turistas pra cidade e você percebe que são mostrados apenas alguns monumentos: a Iracema com o arco (na praia), as praias, a Ponte dos Ingleses, barracas de praia e parque aquático, a Praça do Ferreira e, de prédio, no máximo a Catedral, o Mercado Municipal e o Dragão do Mar e seu entorno restaurado, equipamento cultural construído na década de 90.
Defender o antigo numa sociedade que prega o tempo todo que o novo  que é bonito, o novo é que tem valor? É como passear pela rua principal de Aquiraz. Casinhas antigas coexistindo com casas de fachadas retas, moderníssimas, revestidas com porcelanato brilhante, com janelas de vidro verde e esquadrias de alumínio branco.
Você então para pra perguntar a alguém sentado na calçada de uma casa antiga se ela se orgulha de ter preservado a casa como era, e ela diz que só não mudou ainda porque não tem o dinheiro necessário, porque afinal “pra cidade ir pra frente tem que modernizar”.
Parece mesmo que não é uma questão de falta de memória. Ela apenas é arrancada de nós pela força do dinheiro e pela pressa em parecermos modernos.
Texto: Patrícia Moura http://moraremfortaleza.com.br/
Fotos: Vicente de Paulo/ Felipe Camilo

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