domingo, 11 de março de 2012

Dose diária 11/03/2012

POEMA DE JOAQUIM DE SOUZA.
A LUZ DE UMA ESTERINA

Não chores, por Deus! O meu destino
Rojou-me à pira ardente dos prazeres...
- Preciso do satânico-divino
Desses devassos beijos das mulheres;
Eu sei que vou morrer! ... Lufada fria
Desnudou meu vergel de mocidade;
Queima-me o sangue a febre n’adentia
Em ondas de fugaz lubricidade! ...

Qual vulto temeroso, que perpassa
Entre as névoas de escura cerração,
Sozinho, aos ombros nus conchego a capa,
E mergulho na longa escuridão!

Vem, sombra peregrina e lagrimosa
Palpitante de pejo e de receio,
- Qual nuvem perfumada e vaporosa,
De manso adormecer sobre o meu seio! ...
Oh vem! Ninguém te escuta, a lua dorme,
No seu leito de arcanjo e prostituta...
Em longos beijos, Marion Delorme...
- Pousemos do prazer a taça enxuta!

Olha, a brisa repousa no arvoredo,
O céu é todo crepe... Nem um círio!
Esse resto de vida que nos resta,
Oh! Gastemos na taça do delírio!

Eu quero enodar-te essa grinalda....
Acho um gozo satânico em perder-te!
- Não sei se é ódio a febre que me escalda,
Esse fogo, que faz-me enlouquecer-te!

Tu és anda um rio de minh’alma
Que voga sobre o mar do ceticismo;
Um traço do luar de noite calma
Resvalando dos céus, no meu abismo!

Espreita à luz mortiça da lanterna
O moço Don Juan, - o libertino;
Dorme a sonhar na banca da taverna...
- Deixai, - o condenado do destino!

É tarde, Marion, p’ra os devaneios...
É hora de gozar, que foge a vida...
Deixa beber aromas nos teus seios,
E busquemos nos céus a luz perdida!
- Caminheiro sem fé, que vaga insano,
Cavalgando o corcel do seu tormento,
Eu fui o meu senhor e meu tirano,
Morri... e não vivi um só momento!

Não me chores, mulher, se a morte acaso
Repousar-me no rosto o beijo amigo;
Na penumbra infeliz do meu acaso,
Ainda eu viverei talvez contigo!
Lá sob o céu vermelho das procelas
Correm nuvens veloces, incendidas;
São nossas crenças, Marion; são elas,
P’ra o fundo dos abismos impelidas!
- Eu sinto me quebrarem fibra a fibra
A caçoula febril do coração,
E minh’alma que morre, já não vibra,
Senão cantos de fel e maldição!

Oh morramos! ... Sejamos assassinos!
O peito, que gemeu de dor estala;
Em nossa tumba o corvo dos destinos
Ri-se, gargalha, tripudia e fala! ...

SÓ! ...

Brisas da tarde que fugis voando
Lá para o céu azul de eu pais;
- Levai nas asas brancas, perfumadas,
Meu canto de proscrito... e de infeliz! ...
Ide, - tristes formosas companheiras
De minhas horas de febre e de cismar;
Levai, das ilusões, as derradeiras.
E deponde-as na porta do meu lar.

Não foi meu coração que desvairou-se
- No deserto perdido peregrino; -
Foi a sina fatal que consumou-se ...
- Eu nasci já maldito do destino!
Vozes sinistras percorreram lentas
A tela sepucral do meu cenário...
Do futuro nas ondas lutulentas
Galgo o cimo feral do meu Calvário! ...

Minh’alma quis pousar lá nas esferas,
E na sombra fatal adormeceu...
- Viajora da luz e das quimeras,
Nos bulcões da desgraça se perdeu.
Pobrezinha! ... Um anelo amargarudado,
Toda a seiva vital lhe consumiu...
O seu leito de amor foi pó gelado...
- O fantasma da morte ali dormiu!...

Oh doces ilusões! Sombras fagueiras,
Oh formosas visões da musa minha,
Daí-me um raio fugaz daquelas eras,
Daí-me um sonho sequer desses que eu tinha!
- Mas, ai! Meu coração já consumiu-se...
E d’envolta nas cinzas do passado
Resvala tanto riso, que esvaiu-se,
Bóia muito sonhar idolatrado!...

Filho das sombras, no bulcão tateio,
E me sumo no pego carrancudo.
Que me importa o porvir? Meu nome leio
No pórtico fatal, sombrio e mudo!...
Da larva fria da morada escura
Tenho a veste manchada, e as mãos já tintas;
E o arcanjo feral da desventura
Vem-me ao seio acordar vozes extintas!...

Vinde espectros do mal, passai sorrindo,
Vinde loiras vestais, passai cantando!
- Eu resvalo na noite – o céu é lindo,
- Eu mergulho na sombra – o mar é brando!
E quando o tempo, com seu cetro eterno,
O passado rojar, que tudo some,
Lá entre as brumas do tristonho inverno
Nem sequer passará meu pobre nome!...




nome: Joaquim de Souza
Fonte: Diccionario Bio-bibliographico Cearense - Barão de Studart

Joaquim de Souza - Natural de Fortaleza, filho de Francisco José de Souza, marchante, por alcunha Pinta-Femea, e de D.a Maria Magdalena. Estudou no Collegio Atheneu Cearense que deixou, conhecendo mais ou menos o Português e o Francês.

Talento privilegiado mas luctando com a adversidade, entregou-se á vida de typographo, sendo suas tendas de combate as typographias do Cearense, essa por pouco tempo, e do Pedro II, cujo administrador então era Paula Lima. que costumava chamai-o de meu filho. Alli explodia, attrahindo as geraes attenções, seu talento de poeta, da escola Byroniana, republicano e atheneu. Chamavam de o Byron da Canalha.

Mas foram o Zephiro e a Revolução os dois jornaes de Fortaleza em que mais abundante e brilhantemente deixou elle á admiração publica os productos de sua intelligencia peregrina. Os escriptos que se contem nos dois citados jornaes estiveram colleccionados em mão de José Lino de Paula Barros, que lhes deu destino ignorado.

Cansado da vida bohemia, que levava em Fortaleza, e sedento de um meio mais movimentado e que lhe imprimisse ao organismo vibrações novas e mais violentas, pensou um dia em ir á Capital do Império. Foi isso em Abril de 1876.
A fortuna ou o infortúnio sob o veu de cinco contos, que lhe deixara o pae, facilitou-lhe realisar os projectos que acalentava e condusiu-o a aquelle grande palco, que em sonhos de moço se lhe afigurava de seducções e glorias, mas aos poucos foram se exhaurindo os recursos naquelle viver de estróina descuidado e a realidade se lhe antolhou tétrica e inclemente.

Já se contentava com o humilde emprego de carteiro dos Correios do Ceará, mas nem isso mesmo alcançava da benignidade do Ministro, que tantas vezes solicitara. Afinal resolveu o grande problema e no oceano em calma da Bahia do Guanabara sepultou para sempre as tempestades de sua alma afflicta e revoltada.

“Não foi meu coração que desvairou-se, No deserto perdido peregrino— Foi a sina fatal que consummou-se; Eu nasci já maldicto do destino”. Encontrado o cadáver do poeta suicida acharam-se-lhe no bolso uma moeda de vintém, um retrato e essa bella gemma poética, que se intitula A' Minha Irmã e que foi seu canto de cysne. Triste espolio! Era o 7 de Setembro de 1876.

O A' Minha Irmã dizia assim:
Oh! mar oh! solidão eu te saúdo: No deserto soberbo em que tu rolas Passa a aza subtil da garça branca Como tênue vapor que se esvaece: Mas o verme brutal não vae rasteiro Sobre o leito da dor dormir impuro.
Alta noite na tolda do navio, Com os olhos fitos nos celestes lumes, Ora plenos de luz, ou desmaiados, Luzes de festa ou cyrios de sepulchro, Eu lembrei-me de ti, oh! minha terra, E foi teu meu suspiro amargurado! Feliz quem sob o lar de sua infância Dormio sempre em risonha placidez, Quem nunca no no céo estrellas negras, Os demônios da dor lançando o crepe Sobre santos recessos de sua alma... Feliz quem dormio somno tranquillo.
Junto a casta família, e o desvario Nunca arrojou ao pélago das aguas! Adeus, oh ! minha irmã, oh ! meus amores! Nunca mais unirei os teus cabellos Ao meu seio febril e palpitante; Adeus e nunca mais passe esta sombra, Que tanto te adorou, por teus sonhares; Morra o meu nome qual a espuma branca Que resvala subtil no mar em calma!
Os trabalhos literários de Joaquim de Souza dão para um grosso volume.
Esse thesouro elle próprio o condusiu para o Rio. Não se sabe onde pára por ventura, mas algo falará do assumpto Raymundo Justiniano, depositário fiel ou infiel não sei dizer.
Ouvi contar depois que por iniciativa de Paula Lima as poesias de Joaquim de Souza haviam sido cclleccionadas e iam sahir a lume, mas a noticia nunca se realizou ou . . . nunca se realizirá por infelicidade das letras cearenses e do renome do autor.

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